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Tecido
"(...) Corpo ao vivo no corpo são sentidos, Incorporo (...)"
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Tecido
Corpo no livro é uma figura,
Eu entendo.
Corpo ao vivo no corpo são sentidos,
Incorporo.
Como eu sou? Não respondo, sinto.
O eu é um conceito. Mas e eu, sou o quê?
Não vou longe, mergulho na pele, pelo, poro.
Começo pelo silêncio da árvore.
Respiro. Percebo lá embaixo
A posição do tálus.
Do pé, uma onda conecta e expande uma orelha
A outra metade escuta e espera sua vez.
O espaço emoldura o movimento sinuoso.
Espaço e movimento são como a pele do ar.
A eles também pertenço e para eles evoluo.
Entendi isso.
Suspiro. Uma célula quer rastejar.
O corpo fala, a poesia emudece.
A poesia toca, ele silencia.
A palavra e a voz se entrosam,
Uma nova linguagem aparece e soma,
Corpo em poesia e prosa.
Percebo o oco do um, a abstinência do meu.
A lonjura do discurso que se esfuma no inútil.
Agora articulo nervos, ossos, sangue,
Ilumino o vórtice na linha inominada.
Memórias, emoções e pensamentos
Nos lábios embocadura rio adentro,
Fluindo num céu de boca vã,
Analfabeta língua sã,
Água viva nave,
Fogo xamã.
Dentro de mim há um corvo,
Uma serpente e um peixe.
Uma asa negra no espaço,
Um deslizar nos fluidos,
Um ziguezague nos ossos,
Um lado é dia, noutro é noite.
Escápulas de sol e aço.
Sou um texto, comovo-me texto.
Palimpsesto do mar morto.
Tábua sagrada num tronco torto.
Caminho e ando no passo
A cada compasso e ritmo,
Pernas escrevem novo traço
As vezes é música, às vezes
Eu passo.
Também sei de ser um dicionário.
Se ponho a mão no peito
A palavra aberta é tecido.
Texituro nascituro e textuo novamente.
Texto é gosma e suor.
Enquanto sutil movimento, uma criação.
A mão entra e fica,
Esculpe o fato.
Os versos refluem neste mesmo poema,
Cutâneo e cenográfico.
Na paisagem, um arco de praia e
O transe alheio dos bichos.
Alguém chega do horizonte.
Na canoa vem a remo
Deixando prá trás o cansaço
De ideias e pensamentos sem fim.
Parece melhor não editar nada
Ao manejar a consciência
De uma herança cósmica.
No indeterminado não há ser que diga algo
Ou que imagine algo,
Pois o entre é bem melhor.
A seressência está nas passagens,
No antes e no depois.
Nem poesia há.
O poema é o ser.